Mariel de Souza Ourives
“A experiência artística, o
fazer artístico, o trabalho com materiais da
Arte, é fundamental, para desenvolver as capacidades de produção –
apreciação que constitui a experiência significativa em qualquer area.”
(John Dewey).
O
Coletivo à Deriva ressignifica a cidade nos lugares por onde atua. Em uma heterogeneidade
de ações promovem um hibridismo de criações coletivas. Ao pensar nessa pratica
de experiência coletiva, mergulhamos no processo do fazer artístico que tem início na ideia de construção e desconstrução, de significados
e ressignificação, de contaminação, de
multiplicidade, de interatividade, de efemeridade, de territorialização /
desterritorialização: que gradativamente imerge
do macro de ideias, para se afunilar na expressão inusitada de uma
experiência coletiva. A intervenção urbana organizada pelo Coletivo à Deriva,
fundado pelo Grupo de Pesquisas e Artes Híbridas do ECCO (Programa de
Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea) no Instituto de Linguagens
da Universidade Federal de Mato Grosso. Sob a orientação da professora Dra. Maria
Thereza Azevedo, o Coletivo à Deriva conta com a participação de artistas e não
artistas de múltiplas áreas em torno de um objeto em comum: a cidade.
Conduzir
um processo criativo a cada nova ação no coletivo demanda grande experiência de
quem o lidera. O método do processo criativo surge em primeira instancia,
estimulado pela fala espontânea dos componentes presentes, que são guiados
através de teorizações específicas e reflexões. Em vários momentos de
explanação vão surgindo “palavras chaves” compondo uma ideia e criação
coletiva. A proposta coletiva a intervenção urbana é um tipo de
manifestação artística,
geralmente realizada em áreas centrais de grandes cidades. Consiste em uma
interação com um objeto artístico previamente existente (um monumento, por
exemplo) ou com um espaço público, visando colocar em questão as percepções
acerca do objeto artístico. São trabalhos notadamente voltados para uma
experiência estética que procura produzir novas maneiras de perceber o cenário
urbano e criar relações afetivas com a cidade que não a da objetividade funcional
que aplaca o dia-a-dia. A intervenção performática tem a intenção de
sensibilizar o olhar, modificar o significado ou as expectativas do senso
comum, quanto ao objeto.
William Mitchell
aponta que a mobilização do público em torno de um projeto de interesse da
comunidade é tão importante quanto o resultado por ele desenvolvido, uma vez
que problematiza o cidadão-participante em relação à sua realidade cotidiana.
Ao ver seu ‘produto artístico’ inserido no circuito urbano e fruído por
inúmeras pessoas, o artista/público é levado a refletir sobre as formas de
circulação e consumo da arte contemporânea a partir dos mecanismos utilizados
pela publicidade e comunicação de massa (Mitchell, 1984: 153).
O trabalho performático, a “Revitalização Simbólica do Morro da Luz”,
reuniram práticas poéticas com grupos de
pessoas que se encontram e se aproximam,
e cujas reações que emanam deste encontro, sejam estas de ordem
individual-psicológica ou coletiva-social, que são documentadas de forma poética,
notadamente em vídeo, resultantes de interações urbanas e humanas.
A cidade foi o foco do nosso trabalho; todos
nós saímos das aulas estimulados a “olhar novamente” os espaços por onde
passávamos, a fim de percebemos, a movimentação das pessoas, a relação que as
mesmas tem com o espaço urbano, para depois socializarmos as nossas
experiências. Foram vários olhares e propostas defendidas pelos nossos colegas,
dentre elas surgiu uma que foi aos poucos convencendo a todos de sua
importância. Finalmente a escolha do local foi feita, o Parque Morro da Luz, um
dos fortes motivos da escolha foi pensar que este local, com um nome tão
iluminado, localizado no centro da cidade esta simplesmente esquecido e abandonado. Focamos
em ouvir e conhecer as histórias relacionadas a este local, sua importância para
a sociedade Cuiabana. Para isso nos “embrenhamos” literalmente no Parque Morro
da Luz. Esta experiência do conhecer o locar foi de suma importância, pois
sentimos de perto a energia que emanava daquele lugar. Uma espécie de beleza atrelada
ao abandono e descaso, conforme as fotos que tirei durante a sondagem do
espaço, que foram postadas aqui.
“A experiência artística, o
fazer artístico, o trabalho com materiais da
Arte, é fundamental, para desenvolver as capacidades de produção –
apreciação que constitui a experiência significativa em qualquer area.”
(John Dewey).
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Algumas
paisagens do morro: fotos tiradas por Mariel.
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A experiência desse trabalho teve como
foco a petica de “iluminar” este rico patrimônio localizado no centro da
cidade. Lançar sobre ele um despertar de um novo olhar das pessoas que
constantemente estão próximas, ou que tem uma relação saudosa deste lugar que
um dia foi um local harmonioso para passeios em família.
Entre estudos e diálogos foram surgindo
ideias que nortearam a ação performática. Criar um marco de revitalização,
através da poesia e do lúdico, unindo personagens, moradores da cidade que
comungavam do mesmo desejo de chamar a atenção das pessoas para aquele local.
Um dos viés de extrema importância e
relevância foram as mídias, o Facebook, a criação de um blog, que proporcionou
a mobilização da ideia, convidando e compartilhando o momento ápice da ação.
Assim percebemos quantas pessoas comungavam da mesma ansiedade e preocupação,
artistas, amigos, pessoas que recebiam o convite, demonstravam satisfação pela
ação que estava sendo construída.
Outro ponto pensado da ação
performática foi equiparmos de “luz”, luzes que efemeramente se acenderam num exato momento, criando
uma atmosfera reflexiva.
A
ideia do corpo situacionista como um objeto que se redefine por meio da
experiência citadina, podemos observar
que o espaço vazio da falta é o que orienta suas ações e desejos de reinvenção
do urbano. Nesse sentido, quanto maior forem os problemas existentes na cidade,
maior será o empenho criativo do corpo em transpô-los.
Quanto menos segura se
torna a cidade, tanto mais necessário para se viver nela – assim se pensava –
esse é o conhecimento. Na verdade, a concorrência exacerbada leva o indivíduo a
declarar imperiosamente seus interesses.
(BENJAMIN, 1989: 37).
A execução da ação performática no Parque
Antônio Pires de Campos “Morro da Luz”, resultou em uma mobilização coletiva,
aguçando os olhares, posturas e condutas, refletindo novas atitudes. Esta
intervenção performática cumpriu o seu papel, conseguindo mobilizar a imprensa,
os internautas quanto a necessidade de uma atenção especial para esse
patrimônio. O Morro da luz no dia 20 de maio de 2014 tornou-se o foco das
atenções. A ação performática ficará nas nossas lembranças, e se manterá viva
através da internet e redes sociais da comunidade coletiva Morro de Luz.
Referências
BENJAMIN,
Walter. Charles Baudelaire: um
lírico no auge do capitalismo. São Paulo Brasiliense, 1994.
CALDEIRA, Solange Pimentel. O lamento da Imperatriz: a linguagem em
trânsito e o espaço urbano em Pina Bausch. São Paulo: Annablume,
2009.
COCCHIARALE, Fernando. A (outra) Arte Contemporânea
Brasileira. Intervenções urbanas micropolíticas. Revista do Programa de
Pós-Graduação em Artes Visuas EBA. UFRJ, 2004
GARCIA, Andréa Maciel. Corpo e cidade – ecos do situacionista e do Flâneur nas corpografias do presente.
MITCHELL,
William. Corpo poético, uma cartografia do lugar. 1984.
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