sábado, 28 de junho de 2014

Caçando Actantes: experimentos em arte e política em um Morro de Luz


Walter Couto


É de Eric Hobsbawm (2002) a afirmação de que as tradições são inventadas por uma elite com o objetivo de trazer coesão social às culturas; Na mesma linha, Barbero (2003) fala em processos de enculturação. Talvez isso signifique que nossos símbolos, nossa coletividade e nossos ritos sejam todos limitados pela ação - aqui chamada de actância, porque incluímos também os não-humanos (Latour, 2012). Antes de terem uma “existência” própria, naturalizada, as instituições que compõem a tradição necessitam da actância de atores diversos, dispostos em uma rede. Sem essa organização, sob a fórmula do ator-rede, as tradições podem morrer. Morrer ou se transformar. Quando morrem não há ação alguma, ficam esquecidas e jamais fazem a diferença no curso de uma rede. Quando se transformam fazem apenas a “lição de casa” esperada das culturas: que sejam dinâmicas.

Então não há uma pedra-de-toque das tradições. E isso é bom porque impede que se transfira responsabilidade. Se algo está ruim, do ponto de vista da tradição, do que fazemos sobre algo, de como significamos alguma coisa, a culpa é sempre da geração atual: no mínimo é dela a culpa por se manter amorfa frente ao problema. Em sua etimologia latina traditio significa apenas “entregar”, passar para frente. Daí a ideia de invenção da tradição, porque temos o poder de escolher como passaremos a história para frente. Milênios de culturas orais construíram esse mecanismo, é só com a escrita que surge a preocupação em se fixar algo. Escolhemos o que vamos passar adiante e a realidade da cultura não existe por si só, é sempre criada, inventada e reinventada.

Mas é verdade que há também vezes em que as dinâmicas do poder envolvidas nesses processos de invenção da tradição são próximas daquelas teorizadas por Foucault: Microfísicas do poder, biopolítica, sociedade de controle. Nessas situações o poder é tão difuso que transforma o cidadão comum num agente do poder (um modo não coercitivo). A coesão surge porque a tradição, com todas as suas instituições, age e faz a diferença no social. Há também aqueles momentos em que a ação é mais direta, quando se quer mudar a tradição e inventa-la. Um perturbador meio termo também existe, quando a tradição entra em falência mas não morre; Ela existe, mas não age, e quando o faz é de modo completamente inesperado; Ninguém está preocupado em inventar outra tradição e a que existe não funciona mais.

Talvez em poucos lugares isso ocorreu de modo tão marcado como no Parque do Morro da Luz, em Cuiabá (capital mato-grossense). Tratasse de um parque urbano (referido na cidade apenas como o “Morro da Luz”), como tantos outros que existem em cidades pelo mundo. Ele é importante na história de Cuiabá, está no centro da cidade, no entanto se mantêm invisível. O problema do morro é simples: tinha corpo, um enorme corpo, mas não tinha alma. Outros morros menos cercados de homens tem muito mais vida, como o Uluru, no norte da Austrália, que pode se gabar de ter um enorme catálogo de mitologias e narrativas sob seu verbete. O Uluru conversa com a sociedade, faz parte dela. O Morro da Luz, não. O Morro da Luz era um inconveniente massa de terra no centro da cidade, não fosse pelo “inconveniente” suas tradições estariam todas mortas. Ele era um ser sem alma, mas não estava morto ainda.

Das poucas importâncias que tinha na cidade, destacasse duas. Primeiro o Morro da Luz era um ponto de ônibus, talvez o maior da cidade, onde passam várias linhas. Segundo ele é quase que uma terra intocável e exótica: ninguém nunca subiu lá. Não havia luz no Morro da Luz. Seus donos (e únicos a interagir com ele) eram os usuários de drogas e os moradores de rua. Mas não se enganem, não é deles a culpa do Morro da Luz não ter alma: eles estão lá só por causa disso, um lugar invisível para o ilícito, onde nem a polícia e nem os olhos curiosos da sociedade está presente. Não é por causa deles que o Morro é ruim, mas porque é ruim é que eles o habitam.

O Morro da Luz, por reflexo de sua falta de importância, permaneceu durante muitos anos no universo do mutismo. Jamais falamos sobre o Morro da Luz. Apenas falamos sobre os usuários de drogas e os ônibus que vão passar. Falamos sobre o perigo do morro, mas nunca sobre o que há no morro. É um perigo em potência, porque não há relatos sobre um perigo real vindo dele. É a ideia do perigo da escuridão e da bandidagem. O Morro da Luz se tornou, de forma naturalizada, um lugar distante (mesmo tão perto), um lugar perigoso, um lugar do passado, um lugar que já foi um lugar, mas que hoje não tem importância. Esta situação é prolongada.

Há, no entanto, quem se preocupe com ele, uma minoria. Quem se incomode com um parque fresco se tornar inútil para uma cidade em que há temperaturas de até 40 graus. Se é possível, como afirmamos, inventar as tradições, que se pense então em como pode ser feito. O Coletivo à Deriva buscou o caminho da arte. Conhecido na cidade por promover intervenções urbanas, o grupo (do qual faço parte) propôs uma ação em que se iluminasse o morro, até então totalmente desprovido de luz; Tornar ele habitado, até então totalmente desprovido de pessoas (exceto pelos usuários de drogas e mendigos); Tornar ele vibrante e vivo.
Um evento no Facebook foi criado, então, com o objetivo de convocar a população para algo sem precedentes na vida da esmagadora maioria dos cuiabanos: subir o Morro da Luz. Mas não só isso, todos deveriam levar uma lanterna para ilumina-lo. Além de promover um sarau artístico lá em cima. A arte se coloca então como uma ferramenta experimental de mundos possíveis. O mundo possível que se quer desenhar aqui é o de um Morro da Luz com vida, que dialogue com a cidade e que promova uma outra tradição do Morro. O Coletivo à Deriva quer reinventar a tradição para poder “passar adiante” algo melhor do que temos hoje.

Bruno Latour (2011) fez um exercício bastante importante para entendermos o que ocorreu no Morro da Luz, mas relacionado à ciência. O artigo Experimentos em Arte e Política, o autor trabalha com o pressuposto de que a realidade e a criação são sinonimas. Os pesquisadores criam conceitos. A ciência é um braço da cultura e não está alheia a ela. A forma como os cientistas analisam as inscrições, os dados, é limitada à um universo inteligível, ou um universo que torna as coisas inteligíveis, e esse universo é limitado e quase sempre dialogístico. É natural, portanto, a grande utilização de metáforas explicativas na interpretação dos “dados da realidade”. Como quando os biólogos descreviam o corpo como uma máquina, as células como laboratórios etc. O termo conceito-fetiche, de Umberto Ecco (1993), caminha também nesse viés, quando fala sobre a fragilidade do conceito de indústria cultural apontando sua falta de singularidade.

As artes, especialmente as artes contemporâneas, conseguem romper algumas fronteiras visuais, estéticas e culturais, podendo inclusive causar estranhamento.  De modo que seria interessante para as ciência (ou por qualquer área) dialogar com as artes e utilizar sua capacidade criativa, e ampliativa na interpretação dos fatos. O mesmo é feito pela ficção científica futurista. Ao imaginar um mundo futuro onde a ciência e tecnologia evoluiu de modo diferente, o escritor faz um ensaio sobre alguma coisa. Como se quisesse responder a questão: “o que ocorreria se… algo fosse diferente?” - O que ocorreria se o mundo fosse invadido por alienígenas? O que ocorreria se as máquinas dominassem o mundo? O que ocorreria se pudéssemos viajar no tempo?

A pergunta do Coletivo à Deriva foi “o que ocorreria se o Morro da Luz fosse iluminado, artístico, com vida?”. A intervenção em si constituiu-se, então, no experimento artístico que quis responder essa questão. Cerca de 50 pessoas compareceram ao ato no dia, o evento “Morro de Luz”, criado na rede social, teve mais de 300 confirmados. Uma greve dos trabalhadores do transporte público ocorrida no mesmo dia iria atrapalhar a mobilização, mas não a impediu de ocorrer com sucesso. Cada pessoa levou a sua lanterna, como havia sido pedido. A concentração foi no pé do morro, na alçada, próxima ao ponto de ônibus. A movimentação inicial corroborou o que já disse aqui: os usuários de drogas e mendigos não foram para o morro, se mantiveram distantes. O moro começava a ser um lugar vivo.

No alto do morro tudo o correu de forma difusa, as pessoas fizeram coisas diferentes. Haviam diversas formas de expressão artística: bolhas de sabão gigantes, recitais de poemas, performances de clowns, músicos, projeção de imagens, e, é claro, as dezenas de lanternas que iluminavam tudo. Houve caminhada noturna pelas trilhas esquecidas. Viu-se a cidade de dentro da “floresta proibida”. Dois grandes holofotes deram o ultimo toque especial à intervenção, projetando poderosos feches de luz ao céu. Do lado de fora os transeuntes e usuários do transporte coletivo (os ônibus haviam voltado a circular parcialmente) olhavam com olhos curiosos para um Morro da Luz com luz, iluminado, movimentado.

Não havia perigo no Morro da Luz. A experiência foi transformadora, para o morro e para os participantes da intervenção. Várias fotos foram postadas, em tempo real, para que as pessoas que não puderam sair de casa, por causa da falta de ônibus, pudessem acompanhar tudo pela internet. O ato também recebeu cobertura da mídia local, o que transformou nosso experimento artístico em um experimento político também. No mesmo dia o governador do estado foi preso junto com outros políticos importantes, o que simboliza o descaso do poder público com demandas reais da sociedade. Muitas pessoas começaram a cobrar melhoria para o Morro. Os secretários do prefeito da cidade tiveram que responder a várias ligações de repórteres que começaram a questionar o motivo da escuridão em um morro chamado Luz.

Toda tradição depende da interação - ação intetegrada, ação de vários atores que fazem a diferença em uma rede. Atores que conseguem transformar em algo diferente o que sai daquilo que entra. Os experimentos em arte e política, feitos para imaginar e propor mundos novos, novas formas de habitar locais ou de pensar a cidade, apresentam-se, portanto, em um fator-chave para pensar a tradição. O Morro da Luz, como um ator social, só fará a diferença se for incluído em redes de atores diversos e heterogêneos que farão ele se mover ao mesmo tempo em que serão por ele movidos. Voltar ao morro é preciso. Ocupá-lo.
Caçar actantes, na verdade, é criar actantes. É dar um empurrãozinho nos atores para que eles possam agir por si mesmos. Se antes a tradição relacionada ao Morro da Luz era aquela do mutismo, da não-diferença, da invisibilidade, hoje temos um exemplo de como o Morro poderia ser. Hoje temos o Morro como um ator por si só, que reivindica sua luz porque ele é então considerado nos cursos de ação alheios. É isso o sair da invisibilidade, o poder agir e fazer a diferença.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1993, 5ª ed

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 2002

LATOUR, B. Some Experiments in Art and Politics, e-flux journal 23, 2011

LATOUR, B. Reagregando o Social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Salvador: Edufba, 2012

MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 9ª ed.
Rio de Janeiro: UFRJ, 2003



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Morro de Luz e o processo coletivo virtual de sua realização

João Paulo de Oliveira Carmo

Cuiabá é uma cidade que valoriza suas tradições e seus patrimônios culturais e naturais, mas bem na sua região central está o Morro da Luz, um lugar pouco conhecido pela população, ainda que faça parte da paisagem cotidiana de milhares de cuiabanos que transitam por uma das regiões mais movimentadas da cidade, a Avenida Tenente Coronel Duarte. Este paradoxo foi uma das razões para a intervenção urbana organizada pelo Coletivo à Deriva, fundado pelo Grupo de Pesquisas e Artes Híbridas do ECCO (Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea) no Instituto de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso. Sob a liderança da professora Maria Thereza Azevedo, o Coletivo à Deriva conta com a participação de artistas e não artistas de múltiplas áreas em torno de um objeto em comum: a cidade.
O local batizado de Parque Antônio Pires de Campos passou a ser conhecido como Morro da Luz devido à existência de uma antiga usina fundada em 1928 que fazia a distribuição de energia elétrica para a cidade. Hoje o parque possui diversas trilhas e praças em seu interior, além de uma diversidade de árvores nativas que contrastam com o ríspido ambiente de concreto circundante, como o jacarandá, o jatobá e três variações do ipê (amarelo, roxo e branco).
Porém, esta região que deveria representar um conforto para o agitado ritmo da vida urbana, na verdade desperta insegurança e medo entre as pessoas que circulam ao seu redor, principalmente durante a noite, quando a escuridão absorve todo o espaço ocupado pelo parque. Não há iluminação pública e nem policiamento no local, tornando-o ponto de encontro de usuários de drogas e também de constantes assaltos aos transeuntes e usuários de ônibus que passam pelas proximidades.
Choca o fato de que um parque como o Morro da Luz encontra-se abandonado pelas autoridades responsáveis em preservar e proteger os patrimônios naturais dos cuiabanos. O morro que desponta acima das estruturas de concreto e do asfalto da região central ironicamente é engolfado pelas trevas que se opõe ao nome pelo qual ficou conhecido e se tornou referência entre a população. Foi a partir deste jogo de contrastes, entre o nome do lugar e a atual realidade, entre a história e o cotidiano deste cenário urbano, que o Coletivo à Deriva desenvolveu a intervenção urbana Morro de Luz, uma ação de levar luz ao morro que já não possuía mais luz.
A ideia do Morro de Luz foi iluminar com lanternas, canhões de luz e outros objetos luminosos o local que estava sendo esquecido, chamando a atenção da população e da mídia para a importância de voltar os olhos para um bem que é de direito da população usufruir e não se sentir repelida pelas ameaças geradas por seu abandono. A intervenção Morro de Luz ocorreu durante o pôr do sol no dia 20 de maio de 2014, mas o interessante foi observar que, apesar do ato de subir o morro com as lanternas ligadas ter sido programado para uma data e horário específicos, ele já estava existindo de uma forma bastante dinâmica muito tempo antes através da internet, por meio do blog www.morrodeluzcuiaba.blogspot.com.br e do Facebook.
Morro de Luz foi uma ação coletiva que não se manifestou unicamente pela ocupação física do morro pelas pessoas. A coletividade responsável pela execução do projeto se deu através da internet, pela qual uma diversidade de pessoas interessadas na proposta pôde construir por conta própria a essência do evento que só se consolidaria presencialmente semanas depois de sua divulgação. No artigo Trabalho colaborativo e em rede com a cultura (2010), Fayga Moreira, Gustavo Jardim e Paula Ziviani corroboram com a importância da internet para a realização de projetos que envolvem um coletivo participativo, posto que

ainda que o trabalho colaborativo e as redes não dependam das tecnologias de informação e comunicação, é inegável que estes novos canais de comunicação (primordialmente, a internet) tenham facilitado estas formas de intervenção social, principalmente ao “encurtar” as distâncias entre atores com objetivos em comum (MOREIRA; JARDIM; ZIVIANI, 2010).

Assim, a intensa fluidez da informação redimensiona o espaço público e promove maior interatividade e interconectividade entre os indivíduos, alterando também as relações de tempo-espaço e as mediações culturais. Neste âmbito, a intervenção Morro de Luz, enquanto produto colaborativo, se beneficiou da internet no sentido de contar com a interação dos participantes em um processo de criação independente de hierarquias de atividades rígidas, sendo que as especialidades de cada um contribuía com o mesmo grau de importância para o resultado que se mensurava a cada postagem no blog ou na página criada no Facebook. Neste processo criativo

cada pessoa contribui para o trabalho colaborativo a partir das experiências que possui, mas a contribuição só se torna efetiva quando se compromete com os objetivos traçados, ou seja, na medida em que estabelece relações e conexões com os demais, elaborando propostas concretas a partir de seu campo de atuação (MOREIRA; JARDIM; ZIVIANI, 2010).

Como aponta Priscila Arantes em O Impacto Dos Weblogs: Geopolítica, Compartilhamento e Filosofia Open Source, Foucault criou o termo políticas tecnológicas para abordar as atuais estratégias políticas desenvolvidas pela sociedade capitalista e também para descrever justamente esta estreita sinergia entre os recursos tecnológicos e a sociedade, que tende a gerar uma rede rizomática de conhecimento e de informações construída de forma compartilhada e coletiva. Para Deleuze, este rizoma corresponde à junção de multiplicidades na forma de uma matilha, agregadas metamórfica e desterritorialmente,

não existem mais igualdades e nem menos hierarquia nas matilhas do que nas massas, mas elas não são as mesmas (...) a matilha, mesmo em seus lugares, constitui-se numa linha de fuga ou de desterritorialização (...) na matilha, cada um permanece só, estando com os outros; cada um efetua sua ação ao mesmo tempo em que participa do bando (DELEUZE, 1995:47)

            A ação registrada na página criada no Facebook e no blog corrobora com esta marca da colaboração, ou seja, do compartilhamento de informações e ideias através de uma multiplicidade desterritorializada, ainda que tratasse de um objeto bem localizado geograficamente.
            Esta questão da “desterritorialidade” remete ao conceito de virtual trazido por Pierre Lévy. Para ele, toda entidade “desterritorializada” é considerada virtual, sendo capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular (LÉVY, 1999). O uso do Facebook feito pelos participantes da intervenção Morro de Luz traduz esta forma de participação virtual de um evento coletivo, visto que o evento marcado para uma data específica já ocorria semanas antes por meio dos comentários, sugestões e confirmações de presença através da rede social.
Virtualmente o Morro de Luz passou a existir no momento em que sua página no Facebook e o blog foram criados. De acordo com Lévy (1996), no sentido filosófico, virtual é quilo que existe apenas em potência e não em ato, sendo encontrado antes de sua realização efetiva ou formal (assim como uma árvore que existe virtualmente em uma semente). Foram convidadas para a intervenção 4.400 pessoas pelo Facebook, das quais 337 confirmaram presença e outras 91 não deram certeza de comparecimento. Porém, independente do número de pessoas que subiram o morro no dia 20 de maio, virtualmente o Morro de Luz já estava acontecendo e gerando múltiplas formas de participação entre os envolvidos – o virtual existe sem estar presente.
Este processo de virtualização é encorajado pela extensão do ciberespaço[1] que articula toda uma estrutura social e cultural na contemporaneidade. O desenvolvimento das redes digitais interativas promove este estilo de relacionamento quase independente de lugares geográficos e de coincidência de tempos, ou seja, as particularidades técnicas do ciberespaço permite que qualquer membro de um grupo, em quaisquer circunstâncias, possa comunicar, cooperar e coordenar ideias com os demais integrantes associados. Tal processo de livre compartilhamento caracteriza outro aspecto bastante atual que é a relação estabelecida entre a circulação de informações e produções com a reivindicação de sua autoria, que tem se tornado cada vez mais livre e independente (MOREIRA; JARDIM; ZIVIANI, 2010).
André Lemos discorre sobre a cultura contemporânea em sua interface com as novas tecnologias de comunicação e informação para definir a ideia de cibercultura. Lemos afirma que a cibercultura representa a possibilidade de ampliar a leitura (de qualquer tipo, imediata e feita independente da localização geográfica) e a produção de conteúdo (a livre escrita). Sendo assim, a forma como ocorreu previamente a participação e aglomeração de pessoas em torno da proposta do Morro de Luz corresponde exatamente aos princípios da cultura da leitura e da escrita enfatizada por André Lemos no âmbito da cibercultura. Ou seja, a liberação da emissão, com a inclusão da produção sem qualquer tipo de autorização e que leva à criação de nichos entre pessoas que compartilham e se relacionam em torno dos mesmos interesses, e a conexão generalizada, em que o “poder falar” adquire sentido coletivamente e em rede.
O Morro da Luz permanece na Prainha, ainda que nas sombras do esquecimento, e o Morro de Luz continua existindo no espaço virtual, registrando todas as formas de participação e contribuição dos internautas para a realização da intervenção urbana do dia 20 de maio de 2014. Como afirma Karla Schuch Brunet (2008), a intervenção Morro de Luz cumpriu o seu propósito de se fazer presente e todo o processo colaborativo realizado para promover a ação foi essencial para se construir esta forma de experimentação do espaço público escolhido. Porém, a partir da articulação e da associação de pessoas através da internet e das redes sociais, Morro de Luz foi além da momentaneidade registrada na subida ao morro, transcendendo os limites cronológicos e geográficos ao integrar a magnitude do ciberespaço.

Referências bibliográficas

ARANTES, Priscilla. Impacto dos Weblogs: Geopolítica, Compartilhamento e Filosofia Open Source. In: NP 08 – Tecnologias da Informação e da Comunicação do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. 2005.

BRUNET, Karla Schuch. Mídia locativa, práticas artísticas de intervenção urbana e colaboração. Comunicação e Espaço Público, Ano XI, nº 1 e 2, 2008.

LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2010.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

_____. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.

MOREIRA, Fayga; JARDIM, Gustavo; ZIVIANI, Paula. Trabalho Colaborativo e em Rede com a Cultura. Gestão Cultural: Competência e Desafios. No Prelo.

MORRO da Luz. Disponível em: <http://www.cuiaba.mt.gov.br/upload/arquivo/morro_da_luz.pdf>. Acesso em 21 jun. 2014.




[1] De acordo com André Lemos (2010), o termo ciberespaço foi criado pelo escritor cyberpunk de ficção científica William Gibson para designar o espaço não físico ou territorial composto por um conjunto de redes de computadores através das quais todas as informações circulam sob as mais diversas formas.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

De não-lugar ao espaço: A ocupação do Morro da Luz

Licia Fassarella Carneiro


            Como resultado da disciplina de Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas I: Conceitos, Diálogos e Horizontes, ministrada pela professora Doutora Maria Thereza de Oliveira Azevedo, a intervenção urbana denominada “Morro de Luz” foi realizada no dia 20 de maio de 2014 e organizada pelos alunos da disciplina, juntamente com o Coletivo à Deriva.

            O Coletivo à Deriva é formado pelos membros do grupo de pesquisa Artes Híbridas: intersecções, contaminações, transversalidades – e está constantemente realizando intervenções urbanas na cidade de Cuiabá. Uma marca do grupo são as intervenções feitas com guarda-chuvas.

Intervenção do Coletivo à Deriva
Foto: Maria Thereza de Oliveira Azevedo

A experiência para a escolha do lugar ocorreu durante as aulas ministradas pela professora. Depoimentos eram dados pelos alunos e através deles palavras-chave iam surgindo, como territorialização, solidão e ocupação, por exemplo. Essas palavras moldavam a intervenção e definiam seu objetivo. Muitas vezes, durante os depoimentos, ideias de lugares e ações iam surgindo.

Como havia chegado à Cuiabá havia pouco tempo, não conhecia muito da cidade e não pude contribuir muito em sala com ideias para um local de intervenção. Durante as discussões nas aulas, foram surgindo várias ideias de locais que poderiam abrigar uma intervenção urbana. Quando a ideia de iluminar o Morro da Luz surgiu, a aprovação foi tímida, pois o Morro tinha uma aura de insegurança. Aquela era a primeira vez em que eu ouvia falar do lugar, completamente desconhecido por mim. Em sala decidimos que no dia usaríamos camisetas estilizadas com os dizeres “Morro de Luz” na frente, e “Coletivo à Deriva” na parte de trás.

            O Morro da Luz é nomeado oficialmente Parque Antônio Pires de Campos e foi inaugurado em 22 de maio de 1925. Segundo a página da Câmara Municipal de Cuiabá é “Desaconselhável caminhadas pelo local, pois é área de risco, sem policiamento.” (CUIABÁ, s.d.). Apesar de ponto turístico, o Morro causava medo e insegurança a todos que transitavam ao seu redor. Ele era ocupado por sem tetos e pessoas de baixa renda que iam ali para consumir drogas.

Uma intervenção urbana no Morro teria a intenção de chamar a atenção para as péssimas condições em que se encontrava o Parque. Através dos relatos de companheiros de sala, descobri que nem sempre o Parque esteve naquela situação de abandono. Ele já havia sido ponto de encontro para amigos e namorados. Uma intervenção era necessária para tornar o Morro da Luz visível novamente para a cidade. Como explica Wagner Barja sobre a relação entre cidade e intervenção,

Entender a cidade, seus atores e seus equipamentos públicos como um meio e suporte flexível e também um lugar predestinado a esse modelo de arte é pensar e querer dar conta de uma determinada sociedade e de seus possíveis. Intervir é interagir, causar reações diretas ou indiretas, em síntese, é tornar uma obra interrelacional com o seu meio, por mais complexo que seja, considerando-se o seu contexto histórico, sociopolítico e cultural. (2008, p. 214)

            A chegada no Morro estava marcada para o final da tarde, para que todos pudessem se reunir e subir antes de anoitecer.  Foi a primeira vez que fui ao Parque, antes da intervenção só tive contato com o local através de fotos. Durante a subida, com o pôr-do-sol ainda clareando o local, lembro-me de não achar o Morro tão abandonado e sujo como imaginava. Antes de chegarmos ao ponto escolhido para a intervenção, porém, já era percebido o descaso em relação à limpeza do local.

            Ao anoitecer, pude me certificar do que os colegas tanto falavam sobre o Morro da luz: não havia iluminação pública. O parque ficava na completa escuridão, exceto pelo espaço ocupado pelos cerca de cinquenta participantes da intervenção que portavam lanternas. Um pequeno grupo composto por mim e outros alunos explorou o restante do parque e se não tivéssemos lanternas conosco não conseguiríamos ver absolutamente nada à frente. Um tempo depois, chegaram dois canhões de luz que iluminaram ainda mais o local.

A total escuridão no Morro era evitada pela luz das lanternas dos participantes
Foto: Frank Cesar Busatto

O estado de abandono e descaso em relação ao Morro da Luz pode ser relacionado ao conceito de não-lugar formulado por Marc Augé. O não-lugar, para o autor, surge na supermodernidade, caracterizada pela aceleração e pela continuidade sócio-cultural, e não pela ruptura. Os não-lugares seriam lugares de passagem, transitórios, que não é ocupado pelos cidadãos. Augé explica: 

Se um lugar se pode definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode definir-se nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não-lugar. A hipótese aqui defendida é que a supermodernidade é produtora de não-lugares [...]. [...] um mundo assim prometido à individualidade solitária, à passagem, ao provisório e ao efêmero [...]. (2005, p. 67)

            O Morro da Luz era temido por todos os indivíduos que ali passavam. Logo, era um lugar não frequentado, que não guardava histórias ou identidade. Apesar de haver um ponto de ônibus exatamente em frente ao Parque, os cidadãos não viravam para olhar o Morro. Era como se ele não existisse ali.

            Se para Augé o lugar é o antagônico do não-lugar, que possui história e identidade, para Michel de Certeau o termo “espaço” é que antagoniza positivamente o termo “lugar”. Para o autor, lugar é “[...] uma configuração instantânea de posições. Implica uma relação de estabilidade” (1998, p. 201). Um lugar é uma organização espacial sem significado. O autor diferencia “lugar” de “espaço” relatando:

Em suma, o espaço é um lugar praticado. Assim a rua geometricamente definida por um urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres. Do mesmo modo, a leitura é o espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema de signos – um escrito. (1998 p. 202)

            As pessoas, através de suas ações e apropriações, transformam o lugar em espaço e dão significado ao mesmo com suas experiências. No caso do Morro, os participantes da intervenção, através de suas vivências, transformaram o lugar em espaço.

            O “Morro de Luz” recebeu atenção da mídia, que produziu matérias convocando a população para participar. Uma equipe de uma emissora de televisão também estava presente e fez uma matéria com participantes sobre a intervenção. Os esforços de todos tinham como objetivo reiluminar e reocupar o Parque como parte da cidade. Após a intervenção, a prefeitura pôs novas lâmpadas que finalmente deixaram o Morro iluminado.

Referências Bibliográficas

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade. Lisboa: 90 Graus Editora, 2005.

BARJA, Wagner. Intervenção/terinvenção: a arte de inventar e intervir diretamente sobre o urbano, suas categorias e o impacto no cotidiano. Revista Ibero-americana de Ciência da Informação (RICI). v.1 n.1, p.213-218, jul./dez. 2008. Disponível em: < http://seer.bce.unb.br/index.php/RICI/article/viewFile/816/2359>. Acesso em: 20 Jun. 2014.

BINGE, João Luis. Não-Lugares – Marc Augé. Revista Antropos. v. 2 a. 1. Maio de 2008.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1998.

CUIABÁ, Câmara Municipal de. Pontos turísticos: Parque Municipal Morro da Luz - Antonio Pires de Campos. Disponível em:<http://www.camaracba.mt.gov.br/index.php?pag=tur_item&id=32>. Acesso em: 24 Jun. 2014.